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A não coisa [1] - por Vilém Flusser

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Pouco tempo atrás, nosso universo era composto de coisas: casas e móveis, máquinas e veículos, trajes e roupas, livros e imagens, latas de conserva e cigarros. Também havia seres humanos em nosso ambiente, ainda que a ciência já os tivesse, em grande parte, convertido em objetos: eles se tornaram, portanto, como as demais coisas, mensuráveis, calculáveis e passíveis de ser manipulados. Em suma, o ambiente era a condição de nossa existência. Orientar-se nele significava diferençar as coisas naturais das artificiais. Uma tarefa nada fácil. Essa hera na parede da minha casa, por exemplo, é uma coisa natural simplesmente porque cresce e porque é objeto de estudo da botânica, uma ciência natural? Ou será uma coisa artificial por ter sido cultivada por meu jardineiro conforme um modelo estético? E a minha casa? Será algo artificial, uma vez que projetar e construir casas é uma arte? Ou será natural as pessoas morarem em casas assim como os pássaros vivem nos ninhos? Fará sentindo ainda querer distinguir natureza de cultura quando se trata de se orientar no mundo das coisas? Não seria a hora de buscar outros critérios "ontológicos", como, por exemplo, a distinção entre coisas animadas e inanimadas, móveis e imóveis? Isso também cria dificuldades. Um país, aparentemente, é uma coisa imóvel; entretanto, a Polônia deslocou-se para oeste. Uma cama, pelo que parece é um móvel, mas a minha deslocou-se menos que a Polônia. Qualquer catálogo referente ao universo das coisas, independentemente dos critérios utilizados para compô-lo - "animado - inanimado", "meu-seu", "útil - inútil", "próximo-distante" - apresentará lacunas e imprecisão. Não é fácil nos movimentarmos entre as coisas. 

No entanto, ao olharmos para trás, como fazemos aqui, receonhecemos que era mais aconchegante viver em um mundo de coisas. É claro que havia, se quisermos nos expressar com elegância, certas dificuldades epistemológicas, mas era possível saber mais ou menos o que se deveria fazer para poder viver. "Viver" significa ir em direção à morte. Nesse caminho topava-se com coisas que obstruíam a passagem. Essas coisas chamadas de "problemas" tinham de ser consequentemente retiradas da frente. "Viver" significava então resolver problemas para poder morrer. E os problemas eram solucionados quando as coisas que resistiam obstinadamente eram transformadas em dóceis, e a isso se chamava "produção"; ou então ao serem superados - o que era identificado como "progresso". Até que finalmente apareceram problemas que não podiam ser transformados e nem superados. Eram denominados "as últimas coias", e morria-se por sua causa. Esse era o paradoxo da vida entre as coisas: acreditava-se que os problemas tinham que ser resolvidos para limpar o caminho para a morte, a fim de como se costumava dizer, "libertar-se das circunstâncias", e morria-se justamente por causa dos problemas insolúveis. Isso pode até não soar de um modo muito aprazível, mas não deixa de ser tranquilizador. Sabe-se ao menos o que se tem para ater-se à vida - ou seja, as coisas.

Mas essa situação infelizmente mudou. Agora irrompem não coisas por todos os lados, e invadem nosso espaço suplantando as coisas. Essas não coisas são chamadas "informações". Podemos querer reagir a isso dizendo "mas que contrassenso!", pois as informações sempre existiram e, como a própria palavra informação indica, trata-se de "formar em" coisa. Todas as coisas contêm informações: livros e imagens, latas de conserva e cigarros. Para que a informação se torne evidente, é preciso apenas ler as coias, "decifra-las". Sempre foi assim, não há nada de novo nisso. Essa objeção é absolutamente vazia. As informações que hoje invadem nosso mundo e suplantam as coisas são de um tipo que nunca existiu antes: são informações imateriais. As imagens eletrônicas na tela da televisão, os dados armazenados no computador, os rolos de filmes e microfilmes, hologramas e programas são tão impalpáveis (software) que qualquer tentariva de agarrá-los com as mãos fracassa. Essas não coisas são, no sentido preciso da palavra, "inapreensíveis". São apenas decodificáveis. E é bem verdade que, como as antigas informações, parecem também estar inscritas nas coisas: em tudos de raios catódicos, em celulóides, em microchipes, em raios laser. Ainda que isso possa ser admitido "ontologicamente", trata-se de fato de uma ilusão "existencial". A base material desse novo tipo de informacão é desprezível do ponto de vista existencial. Uma prova disso é o fato de que o hardware está se tornando cada vez mais barato, ao passo que o software, mais caro. Os indícios de materialidade ainda ligados a essas não coisas podem ser descartados ao apreciar o novo ambiente. O entorno está se tornando progressivamente mais impalpável, mais nebuloso, mais fantasmagórico, e aquele que nele quiser se orientar terá de partir para esse caráter espectral que lhe é próprio. 

Mas não se faz sequer necessário trazer à consciência essa nova configuração do ambiente. Estamos todos impregnados dela. Nosso interesse existencial desloca-se, a olhos vistos, das coisas para as informações. Estamos cada vez mais interessados em possuir coisas para as informações. Estamos cada vez menos interessados em possuir coisas e cada vez mais querendo consumir informações. Não queremos apenas um móvel a mais ou uma roupa, mas gostaríamos também de mais uma viagem de férias, uma escola ainda melor para os filhos, mais um festival de música em nossa região. As coisas começam a retirar-se para o segundo plano de nosso campo de interesses. Ao mesmo tempo, uma parcela cada vez maior da sociedade ocupa-se com a produção de informações, "serviços", administração, sistemas, e menos pressos se dedicam à produção de informações, "serviços", administração, sistemas, e menos pessoas se dedicam à produção de coisas. A classe trabalhadora, ou seja, os produtores de coisas, está se tornando minoria, enquanto os funcionários e os appratchiks, esses produtores de não coisas, tornam-se maioria. A moral burguesa baseada em coisas - produção, acumulação e consumo - cede lugar a uma nova moral. A vida nesse ambiente que vem se tornando imaterial ganha uma nova colaboração. 

Pode-se reprovar a descrição dessa reviravolta por ela não considerar a enxurrada de trastes inúteis que acompanha a invasão das não coisas. Essa reprovação, no entanto, não procede: os tratestes inúteis provam o ocaso das coisas. O que acontece é que alimentamos as máquinas de informações para que elas "vomitem" esses trastes da forma mais massiva e barata possível. Esses restos descartáveis, isqueiros, navalhas, canetas e garrafas de plástico, não são coisas verdadeiras, não dá pra se apegar a elas. E à medida que, progressivamente melhor, aprendermos a alimentar de informações as máquinas, todas as coisas vão se converter em trastes desse tipo, inclusive casas e imagens. Todas as coisas perderão seu valor, e todos os valores serão transferidos para as informações. "Transvaloração de todos os valores". Essa definição, aliás, é apropriada para o novo imperialismo: a humanidade é dominada por grupos que dispõem de informações privilegiadas, como por exemplo, a construção de usinas hidrelétricas e armas atômicas, de automóveis e aeronaves, de engenharia genética e sistemas informáticos de gerenciamento. Esses grupos vendem as informações por preços altíssimos a uma humanidade subjulgada. 

O que está em marcha ante nossos olhos, esse deslocamento das coisas do nosso horizonte de interesses e a focalização dos interesses nas informações, é sem precedente na história. E, por isso, inquietante. Mas se quisermos nos orientar melhor nesse campo, teremos de buscar, apenas da ausência de precedentes, algum tipo de paralelismo. Senão, como poderíamos sequer tentar imaginar nosso mode de vida em um ambiente imaterial como esse? Que tipo de homem será esse que, em vez de se ocupar com coisas, irá se ocupar com informações, símbolos, códigos, sistemas e modelos? Existe um paralelo: a primeira Revolução Industrial. O interesse se deslocou nitidamente da natureza, das vacas e dos cavalos, dos lavradores e artesãos para as coisas, para as máquinas e seus produtos, para a massa de trabalhadores e para o capital. e assim surgiu o mundo "moderno". Nessa época podia-se afirmar, e com razão, que um camponês do ano 1750 a.C. seria mais parecido com um camponês de 1750 d.C do que com um porletério, seu filho, do ano 1780 d.C. hoje em dia decorre algo parecido. Estamos mais próximos do trabalhador e do cidadão da Revolucãi Francesa do que dos nossos próprios filhos, dessas crianças que vemos por aí brincando com aparelhos eletrônicos. A comparação certamente não vai fazer com que a atual revolução se torne mais confortável para nós, mas ela pode servir para melhor apreensão do objeto.

Poderemos então compreender que o esforço de nos atermos às coisas na vida talvez não seja o único modo racional de viver, o que vai ao encontro daquilo em que estamos inclinados a acreditar, que nossa "objetividade" é algo relativamente novo. Entenderemos que se pode viver diferentemente, talvez até de forma melhor. Aliás a vida moderna, a vida entre as coisas, não é tão excepcionalmente maravilhosa como talvez pensassem nossos pais. Muitas sociedades do Terceiro Mundo, excluídas do bloco ocidental, parecem ter boas razões para rejeitá-la. Se nossos filhos também começarem a repudiá-la, não será necessariamente motivo de desespero. Pelo contrário, teremos que imaginar essa nova vida com as não coisas. 

Admitamos: essa não é uma tarefa fácil. Esse novo homem que nasce ao nosso redeor e em nosso próprio interior de fato carece de mãos. Ele não lida  mais com as coias, e por isso não pode mais falar de suas ações concretas, de sua práxis ou mesmo de seu trabalho. O que lhe resta das mãos são apenas as pontas dos dedos, que pressionam o teclado para operar com os símbolos. O novo homem não é mais uma pessoa de ações concretas, mas sim um performer (Spieler): Homo ludens, e não Homo faber. Para ele, a vida deixou de ser um drama e passou a ser um espetáculo. Não se trata mais de ações, e sim de sensações. O novo homem não quer ter ou fazer, ele quer vivenciar. Ele deseja experimentar, conhecer, e sobretudo, desfrutar. Por não estar interessado nas coisas, ele não tem problemas. Em lugar dos problemas, tem programas. E mesmo assim, continua sendo um homem: vai morrer e sabe disso. Nós morremos de coisas como problemas insolúveis, e ele morre de não coisas como programas errados. Essas reflexões permitem que nos aproximemos dele. A irrupção da não coisa em nosso mundo consiste numa guinada radical, que não atingirá a disposição básica da existência humana, o ser para a morte. Seja a morte considerada como a última coisa ou como uma não coisa.

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